Contos

A melhor escolha

Miriam olhou o homem que estava abrindo a porta ao lado da sua cabine no navio. Por um momento ficou na dúvida se era mesmo ele, embora seu coração tivesse mudado o ritmo. Quando ele, sorridente, veio em sua direção, teve certeza: o mesmo Alfredo de sempre, confiante e elegante.

Abraço-a efusivamente e disse que sabia que um dia a encontraria. Ela entregou-se ao abraço: sempre sobra uma espécie de saudade de um amor mal acabado.

- Enfim vamos fazer uma viagem juntos? É o destino que mais uma vez está nos reunindo. Agora...

Como num flash ela reviu o passado: moravam na mesma rua, cursavam o mesmo colégio, a mesma aula. Primeiro e segundo graus juntos. Da amizade passou ao namoro e deste ao amor. Tudo lindo, davam-se muito bem. Até que um dia seu pai, viúvo, também se foi. Alfredo, filho único, herdou uma fortuna fabulosa. Com 18 anos estavam se preparando para fazerem o vestibular, ela para Medicina, ele para Direito.

- Miriam, não diz nada?

- Oh! Alfredo. Claro que estou muito feliz em te rever. Não esperava esta surpresa.

Sua voz não era firme, havia em cada palavra um monte de recordações.

Despediram-se com a promessa de se ver novamente, o que seria inevitável dentro de um navio. Aliás, suas duas amigas, Maria Helena e Lúcia, responsáveis por convencer Miriam a fazer aquela viagem, pareciam cúmplices, pois Alfredo sempre sabia onde ela estava no navio. Elas torciam por Alfredo e aconselhando-a, falavam que ele não era homem de se jogar fora duas vezes... Gentil como sempre fora, quando desembarcavam em algum lugar não deixava elas pagarem nada.

As amigas começaram a notar que Miriam estava mais calma. Até parecia feliz. Aqueles dias no navio estavam estreitando o relacionamento dos dois. A primeira vez que se beijaram, Miriam sentiu algo estranho. Gostara, mas de repente sentiu uma saudade imensa do falecido marido. Ficou confusa entre os dois sentimentos tão antagônicos, fazia tão pouco tempo...

Quando ela começou a estudar para o vestibular, Alfredo confessou:

- Miriam, eu não vou fazer o vestibular. Larga esses livros. Vamos casar e correr o mundo. O que eu quero ver não se encontra nesses livros.

- Mas Alfredo, o que seremos? Só viajantes? Eu quero ser médica, sinto que posso ajudar as pessoas. Este foi o meu sonho desde pequena.

- Eu não, sempre sonhei em viajar. Se não fui antes, é porque não queria deixar papai sozinho. Ele morreu de tanto trabalhar, construiu um Império e foi um escravo do trabalho e do seu dinheiro. Aproveitou o que tinha? Mas nós podemos fazer isso por ele e por nós. Miriam, o mundo tem lugares incríveis que precisamos ver e sentir. Vamos viver, meu amor?

- E tu achas que o dinheiro não vai acabar um dia?

- Não vai. Esta tudo muito sólido, muito bem administrado por pessoas de inteira confiança de papai. Posso viver tranquilo, porque não conseguirei gastar em um dia o que ganho nele.

No fim cada um foi atrás de seus sonhos, ele saiu a viajar, e Miriam cursou Medicina.

Em uma das noites lindas e estreladas nas quais passeavam pelo navio falando banalidades, Alfredo disse:

- Miriam, preciso te contar algo. Eu fui casado e tivemos uma filha. Já estamos separados há quatro anos e a menina mora com a mãe. Mas...

Ela pensou: poderia ser a filha que não tive e que sempre quis. Como a minha vida teria sido diferente se eu tivesse casado com Alfredo. Não, não, eu não trocaria a minha vida com Guilherme nem por uma filha. Fui muito feliz com ele. O que passou, já era. Agora é outra estória.

- Miriam, por favor, estou aqui a falar, falar e estás muda, com o olhar perdido. Tenho a impressão de que nem estás me ouvindo...

- Estou, sim, Alfredo. Tens uma filha. Eu nunca pude ter filhos. Estou sozinha.

Ele a abraçou e ficaram mudos no tombadilho sentindo a brisa do mar e olhando as estrelas. De repente, ela encostou o rosto no ombro do companheiro e começou a chorar. Lembrava-se de quando a enfermeira do marido lhe telefonara para comunicar o ocorrido. A enfermeira estava esperando que o médico a avisasse que o próximo cliente podia entra. Como estava demorando muito, além do normal, resolveu bater na porta e, não recebendo resposta, entrou. Encontrou o médico caído no chão. Saiu correndo para avisar os outros médicos da Clínica.

Era tarde demais para uma parada cardíaca:

Guilherme tivera um infarto agudo do miocárdio assintomático.

Na ultima noite da excursão, Alfredo pediu às amigas que os deixassem jantar sozinhos. Conseguiu uma mesa isolada para os dois. Quando ela pegou o quardanapo para pô-lo no colo, descobriu que ele escondia um lindo estojo. Ele pediu que ela o abrisse, e dentro havia um maravilhoso anel de diamantes, com um pequeno bilhete: “Minha querida, quero levar-te a conhecer todos os lugares do mundo, que sem ti fui obrigado a visitar. Casa comigo?”

Ela largou o estojo sobre a mesa. Ele o pegou, tirou o anel e tentou colocá-lo no dedo da amada. Ela puxou a mão, impedindo o gesto.

Mas mais uma vez, ela sabia qual era o seu lugar no mundo.


08/12/2014

 

 

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