Contos

O Mar (Inspirado numa canção de Dorival CAYMMI)

“O mar quando quebra na praia é bonito... é bonito.”

Era a mais bonitinha, a mais queridinha, a mais bem feitinha de todas mocinhas lá do arraia. Com seu vestidinho branco de pintinhas vermelhas encantava os pescadores, moços e velhos que sonhavam em tê-la nos braços. Mas ela era apaixonada por Pedro e tudo fazia para chamar-lhe a atenção. Pedro também a amava, entretanto, tímido, não se atrevia a dizer-lhe nada. À noite, ensaiava as palavras que diria a Rosinha quando no dia seguinte a encontrasse. E quando isso acontecia, essas palavras tão estudadas, tão desesperadamente encontradas, voavam assustadas como as gaivotas da praia. Quando pescava, o melhor peixe era para Rosinha. Entregava-o calado, ele que tinha tanta coisa a lhe dizer, sentido que se falasse algo, as palavras sairiam grossas e ásperas, como estava agora sua língua.

“O mar quando quebra na praia é bonito... é bonito.”

Pedro vivia da pesca. À tardinha saia em seu barco e só retornava, trazendo consigo o sol nascente. Rosinha ficava na praia, rezando para ele voltar. Um dia, Pedro saiu, e seu barco voltou só. Rosinha esperava e esperava e rezando chorava.

O barco de Pedro ficou jogado na areia, ninguém teve coragem de nele tocar. Quem por ele passasse, fazia o sinal de cruz.

Hoje, ninguém mais conhece a Rosinha, que era a mais bonitinha, a mais queridinha, a mais bem feitinha de todas mocinhas lá do arraia. Parece que endoideceu. Um dia Rosinha pegou o barco e colocou na água. Um pescador que viu tentou impedir, mas ela conseguiu, e saiu com ele para o mar.

Desapareceu no horizonte.

E mais uma vez o barco voltou só.


02/12/2014

 

 

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