Contos

A solução da menina

Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Já ensaiara, dezenas de vezes, como contar ao pai. Nenhuma forma lhe parecia adequada. Ela sempre tropeçava nas palavras escolhidas. Olhou ao seu redor, Achou seu quarto infantil até para ela. Brinquedos, joguinhos, bonecas espalhadas, e se deu conta que estava apertando contra o peito a sua boneca preferida. Aquela última que sua mãe lhe dera, antes de... Se a mãe estivesse aqui, tudo seria mais fácil. Não, não, não, a mãe não merecia passar por isso. Fechou os olhos e tentou visualizar aquele quarto diferente. Até sorriu com as coisas que estava imaginando. Mas o que tinha que falar não combinava com nada disso. Continuou pensativa e, de repente, levantou-se num salto e correu para a sala de televisão onde sabia que ele estava.

- Pai... ele a olhou e apagou a televisão.

- Que foi, minha filha, andou chorando?

- Pai, eu sinto tanta solidão... Essa casa é tão grande e só nos dois morando nela. Às vezes, fico perdida.

- Mas, filha, tem a Alda e o Renato.

- Eles não fazem parte de nós. São empregados, são pagos para isso.

- Mas, Alda vem às 7 horas e só vai embora às 19, quando Renato chega para passar a noite. Meu enfermeiro só sai com a chegada da Alda. Isto quer dizer que cada um deles trabalha doze horas, nunca ficamos sozinhos. Nos domingos, teu primo substitui Renato, o que sempre achei muito altruísmo, dado a pouca idade que tem.

- Eu penso numa pessoa que seja nossa, como mamãe era.

- Por favor, não me digas que queres que eu case outra vez, no estado em que estou, precisando de cuidados médicos. Só se eu casar com uma enfermeira...

- Não é isto, papai.

- O que é então?

- Poderíamos adotar uma criança que enchesse esta casa de alegria, de risos, de choros.

- De preocupações, de cuidados. Não, Isabel. Esses sentimentos eu já tenho contigo. Vou esperar, se Deus me ajudar, pelos meus netos. Quero que enchas nosso lar com teus filhos, que vou amá-los como avô nenhum jamais amou. Rezo muito, com muita fé, que alcançarei este dia.

- Papai, e se eu te disser que este dia já chegou?


28/11/2014

 

 

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